Histórico Parte I: a cidade de Rio Preto
- 16 de set. de 2014
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São José do Rio Preto, cidade localizada a noroeste do interior do Estado de São Paulo, teve suas primícias datadas a partir de 1820, ano da chegada dos primeiros desbravadores em busca de terras devolutas existentes no local para exploração agrícola e criação de animais domésticos[1].
Assim como a maioria das cidades médias do interior paulista que surgiram no século XIX, Rio Preto, como é denominada por seus cidadãos, teve sua origem a partir da doação de terras à igreja católica[2].
Sua primeira ocupação ocorreu no cume do espigão formado entre os córregos Canela e Borá, afluentes do Rio Preto, a partir da doação do Patrimônio de São José à igreja pelos pioneiros na ocupação do sítio. A cidade foi fundada em 1852 e, nesse momento, a religião católica exercia um papel de coesão social e regulação nas transferências de terras.
Até 1892 não havia qualquer perspectiva de progresso para a cidade, a qual possuía uma economia basicamente de subsistência, em razão de seu isolamento geográfico. Entretanto, ao fim do século XIX com a conexão em direção ao Mato Grosso através da abertura da Estrada Geral, o povoado se consolidou como ponto importante por ser a ultima vila, sendo conhecida então como “Boca do Sertão” [3].

A emancipação politico-administrativa de São José do Rio Preto ocorreu em 19 de julho de 1894. Neste momento o município já contabilizava 10 mil habitantes, dentre estes cerca de 1000 em seu núcleo urbano, onde havia um hotel; um açougue; uma farmácia; uma lojinha de quinquilharias, bebidas e quitanda; uma “fábrica” de potes, de produção artesanal; uma olaria, uma carpintaria e oficina e dois engenhos de açúcar e pinga[4].
Foi também nessa época que, encomendado pelo pároco do vilarejo José Bento da Costa, a cidade teve seu primeiro plano urbano desenhado pelo engenheiro-urbanista florentino Ugolino Ugolini. Por meio de um traçado retilíneo Ugolini elabora então um plano de expansão para Rio Preto para além da margem esquerda do córrego Borá[5], no qual dividiu a cidade em quadras reservando algumas para a realização de parques e praças, formando assim um “eixo” arborizado situado entre os córregos Canela e Borá (cume do espigão). Estas áreas foram mais tarde, utilizadas pela Prefeitura em construções públicas e particulares.

Entretanto, é possível identificar este primeiro desenho como o primeiro plano urbanístico de Rio Preto, onde é realizado o registro cadastral dos lotes e, também, onde se define a área de expansão em relação ao núcleo central, as áreas públicas e os espaços verdes.
Faz-se necessário ressaltar que até o início do século XX, a cidade se apresentava ainda como uma pequena vila em pleno sertão paulista. Somente com a construção da ferrovia, a economia e o desenvolvimento da cidade são fortemente impulsionados. O local de implantação da Estrada de Ferro Araraquarense se deu à margem esquerda do Rio Preto, através da intervenção do Estado para aterrá-la. Nesse sentido, pode-se considerar que esta área fora fabricada para possibilitar a instalação dos trilhos no fundo de vale.
A inauguração da Estrada de Ferro Araraquarense ocorreu em 1912, e deveria ligar a capital São Paulo à Cuiabá. Entretanto permaneceu paralisada durante 23 anos, configurando o município como ponta de linha, ou seja, como a ultima estação do Estado. Desse modo, a cidade se tornou ponto de convergência de mercadorias a serem escoadas, produzidas na região, como o grão de café[6], além de propiciar a troca de mercadorias vindas da capital.

Em entrevista a Professora Nilce Lodi, José Dias Arroio conta como participou do avançamento da EFA em Rio Preto[7]:
“Começamos a aterrar o lugar onde hoje é a rodoviária. Havia uma escada, daí para baixo começamos a tirar terra e a nivelar tudo até a beirada do córrego (o Rio Preto). A Rua XV de Novembro ia até onde hoje é o Palácio das Águas. Era aí que as boiadas paravam para beber. Meu trabalho era despejar a terra das carroças. Fizemos a esplanada, rio abaixo.”
Sem dúvida, esse foi o principal fator de transformação ligado ao crescimento e desenvolvimento de Rio Preto, que agora via a movimentação de pessoas, mercadorias e cidades interligadas pela ferrovia, através da diminuição das distâncias regionais. Aos poucos, devido ao aumento da demanda, iam se instalando na cidade agências bancárias, conformando-se Rio Preto em centro do comércio, aonde pessoas, vindas de locais vizinhos, buscavam por lazer, compras e moradia.
A cidade, em processo de acelerado crescimento, começa a se expandir para além do patrimônio de São José, em direção aos terrenos alagadiços próximos aos Córregos Borá e Canela e ao Rio Preto. Assim, uma relação estreita entre as águas e a cidade vai se tornando cada vez mais conturbada, devido aos antigos relatos de alagamento nas proximidades das áreas de fundo de vale.
A primeira Estação Ferroviária inaugurada em 1912 compunha juntamente com a Praça da Ferroviária (Praça Paul Harris), a antiga Esplanada, construída com a chegada dos trilhos à cidade, através do aterramento da margem esquerda do Rio Preto. O local, fabricado para possibilitar a implantação da esplanada, está situado a aproximadamente cinco metros abaixo do nível da Rua Pedro Amaral.
A área onde a estação ferroviária fora implantada, entre os córregos Borá e Canela e o Rio Preto, em razão de sua geografia favorável, se tornou propícia também para o início da industrialização na cidade. Assim, aos poucos, seu entorno foi sendo ocupado com indústrias ligadas à cultura do algodão e de pequenos grãos[8], além de inúmeros galpões de beneficiamento. A escolha do local foi imprescindível para o estabelecimento dessas indústrias, que podiam usufruir do abastecimento de água pela proximidade com o Rio Preto, além da facilidade em escoar e receber a mercadoria a outras cidades da região pela estrada de ferro.

Para atrair essas indústrias, a administração do município se valia de incentivos fiscais além de subsídios, como a doação dos terrenos. Em 1936 é instalada então, a Companhia Swift do Brasil S.A., a qual fabricava óleo de caroço de algodão. Também fizeram parte desse processo as algodoeiras Anderson Clayton, Francisco Matarazzo, SANBRA e SAAD, além do Cotonifício Rio Preto S/A, e do Pastifício Rio Preto.
“A partir de então, a cidade assiste à expansão industrial responsável por alterações de forma significativa de seu perfil e as transformações da economia provocaram mudanças significativas nas funções estabelecidas para o urbano. Consequentemente ocorreu o incremento da urbanização e a formação de um contingente urbano, ansioso por empregar sua força de trabalho em novas atividades econômicas, não só na indústria como também no setor de serviços.” (LODI,2009)
Embora fosse visível seu desenvolvimento econômico, Rio Preto até então não havia enfrentado questões advindas desse desenvolvimento com relação as suas barreiras físicas e a transposição dessas barreiras pelo traçado urbano. A cidade se expandia sem que houvesse qualquer planejamento, sendo seu crescimento desordenado fruto da ausência de uma política de desenvolvimento urbano. Em períodos de chuva, a área da esplanada e suas adjacências sofriam com as inundações provenientes de seus cursos d’água e ficavam intransitáveis, dificultando assim o acesso dos passageiros à escadaria que leva à Rua Voluntários de São Paulo.
Assim, na década de 1950 o poder público, pressionado pela burguesia rio-pretense, a fim de solucionar os problemas latentes, convida então alguns engenheiros-arquitetos da prefeitura de São Paulo a visitar a cidade e para a elaboração um plano.
Entretanto, essa história ficará para o próximo post, onde o foco será a década de 1950 até os dias atuais.
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[1] Os primeiros a ocuparem São José do Rio Preto foram migrantes advindos de Minas Gerais e alguns baianos que trabalhavam na derrubada de matas. BRANDI, Agostinho. São José do Rio Preto: roteiro histórico do distrito: contribuição para o conhecimento de suas raízes. São José do Rio Preto: Casa do Livro, 2002. 560p.
[2] “Grande parte das cidades paulistas fundadas durante o século XIX tem os seus chãos originados de patrimônios religiosos, também denominados capelas.” GHIRARDELLO, Nilson. À beira da linha: formações urbanas do Noroeste Paulista. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
[3] A Estrada Geral fazia a ligação das províncias do Império do triangulo mineiro até Cuiabá e foi de grande importância, pois permitiu a colonização do oeste paulista. (BRANDI, 2002).
[4] FRANÇA (1952:99) apud BRANDI (2003:202).
[5] Patrimônio de Nossa Senhora do Carmo (localizado nestas terras) doado em 1847, anteriormente ao Patrimônio de São José (núcleo original). (FRANCISCO, 2007)
[6] O café se tornou a principal atividade produzida na região, e possibilitou o acúmulo do capital e a valorização das terras. Após a chegada da ferrovia saltou de 65,4 toneladas produzidas em 1912 para 181,5 toneladas em 1913.
[7] Entrevista realizada pela professora Nilce Lodi em 03 de Setembro de 1985 com José Dias Arroio que ajudou a construir a EFA.
[8] Nessa época a produção de café havia passado por uma crise, não estando mais fortemente ligada às riquezas da região, favorecendo então, a procura por novos produtos agrícolas mais rentáveis.






















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